terça-feira, 11 de março de 2008

TEMPO DE LER 'QUO VADIS?'




















Domini quo vadis?. Annibale Carracci.
Fonte: Nationalgallery.org.uk

Reza a tradição que São Pedro, fugindo de Roma para escapar às perseguições do imperador Nero, encontrou Cristo na Via Apia e perguntou-lhe: “Quo vadis?- Aonde vais?; ao que o Salvador respondeu: “A Roma, para ser crucificado novamente, porquanto tu estás abandonando meu rebanho”.


De todas as festas religiosas do ano, a Semana Santa é a de que mais gosto. Não sou católica, não freqüento igreja e, na verdade, contesto e condeno todo e qualquer tipo de sistema religioso. Acho que a humanidade era mais livre e espontânea nos tempos antigos, quando as deidades reverenciadas eram entes da Natureza ou mesmo se espelhavam no comportamento humano, como os deuses greco-romanos. Com o advento das religiões monoteístas, seja deste ou do outro lado do globo, o fato é que inauguramos uma era patriarcal, sem precedentes, em termos de luta, violência, ganância e disputa pelo poder.

E que não se considere qualquer crítica à figura de Yeshua. Sim, Jesus, em seu nome hebraico original. Não o Cristo (Christós – o Ungido - nome dado pelos gregos), aquela figura messiânica triste e sofrida, que morreu por todos nós, exposta sordidamente em templos vazios, repletos de ‘fiés’ que não são fiéis à nada. Muito menos à doutrina que o mestre deixou. Tenho certeza de que Jesus preferiria ter vivido como outro homem qualquer, feliz com sua família e amigos. Um homem de sua época, trabalhador ou mesmo profeta, como tantos outros que viveram naquelas terras.

O resgate do ‘Jesus histórico’ tem trazido, finalmente, à tona, várias questões pouco esclarecidas pelos documentos oficiais, ainda que a resistência quanto à aceitação dos textos apócrifos pareça não ter sido vencida, graças à pressão e influência da mater Igreja. Contudo, a verdade arqueológica dos fatos é inegável e gritante, mesmo que gere diferentes interpretações. Afirma a sabedoria popular – Vox populi, Vox Dei - que “o pior cego é aquele que não quer ver”. Concordo com o dito, ainda que se pese a possibilidade de um colapso do sistema religioso cristão com a divulgação de provas irrefutáveis de verdades ‘duvidáveis’, como a perenidade de Jesus, não espiritualmente, mas, em carne e osso, por meio de seus descendentes. Heresia para uns, fato para outros... mas, lembremos que a fé genuína, a crença em uma força além de nós mesmos, e que talvez se origine em nós mesmos, a despeito de qualquer dogma religioso, paira acima do Bem e do Mal.

O excerto no início desse artigo faz parte de Quo Vadis?, a magnífica e belíssima obra do escritor polonês Henryk Sienkiewicz, publicada em 1896. É um dos meus livros absolutamente amados que releio, perto da Páscoa, ano após ano, com a mesma emoção da primeira vez.

É uma história de amor, sofrimento, fé, coragem e esperança, ambientada na Roma de Nero, o Incendiário, e de Pedro, o Pescador. Reza a lenda que Pedro, cujo real nome era Simão, teve essa visão de Jesus, vindo em sua direção contrária, quando pretendia fugir de Roma e da perseguição aos cristãos. Toda lenda tem uma base de verdade e o fato é que, por algum motivo, o apóstolo retornou à cidade, onde foi preso e crucificado, de cabeça para baixo, no Circo de Nero – um local de horrores e, possivelmente, modelo de inspiração para o futuro e famoso Coliseu . Não se sabe, ao certo, a data da crucificação, que pode compreender o período entre 64 a 67 d.C.

A trama tem como personagens principais o jovem patrício Marcus Vinícius e a 'escrava' Lígia, cujas vidas se entrelaçam, de modo angustiante, ao longo do livro. É uma narrativa que discorre, em detalhes, sobre a Roma prestes a ser consumida pelo fogo para que Nero, em sua loucura, compusesse uma ode. É também a Roma das revoltas populares e dos shows grotescos no Circo, onde homens e feras protagonizavam verdadeiras aberrações, até à total aniquilação. É, sobretudo, a Roma onde a fé cristã nasceria e que, durante dois mil anos, irradiaria, para o mundo, uma das mais poderosas religiões monoteístas da história da Humanidade. Tinha início a assim alcunhada “Era de Peixes”; uma era astrológica que cobriu dois milênios completamente passionais, violentos e revolucionários, responsáveis por mudanças drásticas na saga humana.

Para quem não se aventura a ler o livro e, creia-me, é uma leitura densa e emotiva, aconselho a ver o belo filme de 1951, com Deborah Kerr e Robert Taylor. Recomendo, sobretudo, a se voltar para aquilo que mais ama e que faz parte da existência de cada um – livros e pessoas queridas. É um momento de recolhimento e reflexão, mas também de união e celebração.

Enfim... para mim, é tempo de reler Quo Vadis?. É tempo de reviver aqueles tempos que parecem tão próximos de nós, quando chega a Semana Santa e que, independentemente, de qualquer crença ou religião, evocam, a meu ver, uma profunda reflexão sobre a vida e sobre aqueles dias sombrios, nos quais homens e mulheres eram jogados às feras para a diversão e entretenimento de bestas humanas. Evocam, sobretudo, renovação da esperança em acreditar que cada vida, ceifada por preconceito e intolerância, não foi dada em vão e que o mundo pode e deve ser um lugar melhor e mais justo para se viver. Seja a bandeira de luta ornada pelo símbolo do Peixe, ou não.


1 comentários:

Brustolin disse...

Lindo artigo! Seria uma honra tê-la como leitora de alguns livros meus. O Anjo Rebelde tem uma profunda relação com o desenvolvimento da história do cristianismo, sobretudo com a Inquisição e suas hipocrisias, ao longo da Idade Média; contudo, há um livro, ainda no prelo, e que recentemente começamos a negociar com a editora. O nome (provisório, por hora) deste livro é O Soldado e a Feiticeira. Se passa no Império Romano da época de Cristo e trata de uma judia da comunidade dos Essênios e de um oficial romano que não se conhecem, mas que são predestinados a ficar juntos (sim, há uma discussão sobre destino e liberdade de escolha na obra). Cada capítulo, portanto, narra a trajetória de suas vidas, desde o nascimento, até o momento de seu encontro. Meus livros estão sendo publicados em mercado nacional pela Editora Rovelle. Um forte abraço, Lilian!